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Duas palestras na Universidade de Brasilia
Marcello Musto na UnB: os Grundrisse, a alienação e a luta dos trabalhadores contra o avanço ultraliberal
Na próxima semana, a Universidade de Brasília recebe um dos maiores especialistas do mundo na obra de Karl Marx. Marcello Musto, professor da York University (Canadá), lança no Brasil a coleção Alternativas ao Capitalismo e faz duas palestras sobre temas que voltam a ser urgentes: a crítica da economia política e a alienação do trabalho.
Um dos nomes centrais do renascimento dos estudos sobre Marx
Nascido em Nápoles, na Itália, em 1976, Marcello Musto é hoje professor de sociologia na York University, em Toronto, e diretor-fundador do Laboratory for Alternative Theories. Ao longo da última década, tornou-se uma referência global: é reconhecido como um dos autores que mais contribuíram para reavivar a leitura de Marx, com uma obra crítica, filológica e, sobretudo, voltada para o presente.
Seus livros foram traduzidos para 25 idiomas, em dezenas de países. Entre as obras mais conhecidas no Brasil estão O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881-1883), Repensar Marx e os marxismos e Trabalhadores, uni-vos! Antologia política da I Internacional, todas publicadas pela Boitempo. Musto é ainda editor de duas coleções internacionais, Marx, Engels, Marxisms (Palgrave Macmillan) e Critiques and Alternatives to Capitalism (Routledge), e escreve regularmente para jornais como Il manifesto, Jacobin e Corriere della Sera.
Não se trata de um marxismo de arquivo, voltado a um passado morto. A pergunta que atravessa sua obra é justamente a pergunta que nos interpela hoje: por que as categorias de Marx continuam explicando uma sociedade em que a riqueza se concentra e o trabalho se torna cada vez mais precário?
A coleção Alternativas ao Capitalismo
É essa pergunta que organiza a coleção Alternativas ao Capitalismo, publicada no Brasil pela editora Autêntica e coordenada por Musto. A proposta da série é ambiciosa: reunir livros rigorosos, mas acessíveis a um público amplo, capazes de diagnosticar as grandes questões do capitalismo contemporâneo e de apontar caminhos concretos para transformar a sociedade, da economia à ecologia, das migrações ao trabalho. A coleção foi lançada em eventos por várias cidades do país e chega agora a Brasília.
Duas palestras, dois clássicos revisitados
Os Grundrisse de Marx: a História do Primeiro Rascunho de O Capital
Escritos entre 1857 e 1858 e publicados apenas muito depois, os Grundrisse são o laboratório em que Marx esboça, pela primeira vez, a arquitetura de O Capital. É nesse manuscrito inacabado que aparece com força a crítica da economia política em sua forma mais viva: a análise da mercadoria, do valor, da jornada de trabalho, mas também as passagens sobre a alienação que desapareceram dos livros publicados em vida.
A Fortuna do Conceito de Alienação e a Contribuição de Marx
A alienação é, hoje, uma das palavras mais usadas (e mais desgastadas) para descrever a vida no trabalho. Musto recupera o conceito a partir dos escritos econômicos maduros de Marx, para mostrar que não se trata de uma abstração filosófica, mas de uma chave para entender o trabalhador que vê o produto e o sentido do seu próprio trabalho como algo estranho, que não lhe pertence.
Por que esse debate é urgente: Marx contra o avanço ultraliberal
Falar de alienação e da crítica da economia política não é um exercício acadêmico. É justamente o lugar de onde se pode responder ao que vêm sofrendo as trabalhadoras e os trabalhadores no Brasil e no mundo. Nas últimas décadas, a ofensiva ultraliberal se apresentou como uma suposta "modernização": prometeu menos Estado, mais liberdade e mais empregos. O que entregou foi precarização em massa.
A reforma trabalhista de 2017 escancarou as portas para a terceirização irrestrita, o trabalho intermitente e a negociação que retira direitos. Vieram a reforma da Previdência, o congelamento de investimentos em saúde e educação, e a reorganização do trabalho por aplicativos, sob o rótulo de "empreendedorismo", na qual a jornada se estica sem garantias, sem proteção e sem descanso. Cada uma dessas medidas foi justificada com o vocabulário da liberdade. O resultado foi a transferência de renda dos salários para o capital e a multiplicação do trabalho inseguro, adoecido e sem perspectiva.
A obra de Marx, relida por Musto, mostra o que esse discurso esconde: a "liberdade" do mercado de trabalho convive com a dependência real de quem só tem a própria força de trabalho para vender. É por isso que a crítica da economia política continua sendo, antes de tudo, uma ferramenta dos próprios trabalhadores. Como Musto lembra ao resgatar a Primeira Internacional, a emancipação do trabalho não pode ser alcançada num único país e não será concedida por nenhum governo ou patrão: ela se conquista pela organização coletiva. Melhorias dentro do sistema existente são necessárias, mas não bastam enquanto se mantiver a subordinação a quem detém os meios de produção.
Em um país que voltou a debater a jornada exaustiva de quem entrega comida, a insegurança de quem costura por peça em casa e o adoecimento de quem teme perder o emprego, as duas palestras de Musto são mais do que um evento acadêmico. São munição teórica para a resistência, um convite a reencontrar em Marx o que ele sempre teve: um pensamento da emancipação dos trabalhadores.
A atividade é uma ação de extensão da UnB, organizada em conjunto pelo ICS/ELA, o IREL e o Grupo de Estudos e Pesquisas em Materialismo Histórico-dialético e Educação (Consciência), da Faculdade de Educação. A entrada é gratuita, mas as vagas são limitadas e as inscrições devem ser feitas com antecedência.